Porque a América Latina não Consegue Competir em Manufaturados
(2009)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

Há, obviamente, vários fatores explicando esse fenômeno. Vou tentar apontar os principais
baseando-me principalmente em dados do Brasil. Eu creio que mutatis mutandis a analise
é, grosso modo, válida para os demais países desse subcontinente.

Uma questão relacionada e interessante é porque a maioria dos países da região consegue
competir em commodities e outros produtos primários, tais como peixes, frutas, etc. De
fato, muitos desses produtos são extremamente competitivos. Ademais, esse
subcontinente é bastante competitivo na exportação de drogas, emigrantes à procura de
trabalho, travestis e prostitutas, mas esses tópicos não serão abordados nesse contexto.

Há sete pragas econômicas bastante ligadas à produção de manufaturados na América
Latina:

1) Carga Tributária. Brasil é o pior dos casos com um nível próximo aos 40% do PIB,
praticamente o dobro dos outros países da região, com quase nenhuma contrapartida em
serviços públicos.  São muito caros e excessivos os “servidores” que vivem de tributos;

2) Taxas de juros. A razão para tão altas taxas de juros é o permanente aumento da
dívida pública;

3) Os Monopolios Estatais,  Em quase toda a America Latina, eles se encontram
entricheirados no principal setor da economia, i.e., a energia - combustiveis e energia
eletrica. No caso da Venezuela temos um interessante caso do populismo local: como eles
se acham "ricos" em termos de petroleo, o povo, prticamente, nao paga pelo consumo da
gasolina!      

4) Relações de Trabalho. Novamente, o Brasil é o pior dde todos os países. Aqui, existe
uma justiça federal especifica para arbitrar as relações de trabalho, que gera milhões de
processos todo ano, sobretudo, contra as empresas manufatureiras. Isso significa um
importante item nos custos de produção.  

5) Burocracia. A América Latina é uma das piores partes do mundo. Muitos estudos do
Banco Mundial são enfáticos nesse aspecto. O ambiente para fazer negócios, abrir e fechar
empresas,é dos mais difíceis nessa escura parte do mundo. O sistema tributário é um dos
mais ineficientes, uma verdadeira parafernália. Pagar impostos toma um tempo enorme
das empresas Todo dia, são editadas novas normas tributárias; ademais, freqüentemente
os funcionários das alfândegas entram em greve;

6) Os sindicatos. Eles constituem um fator que obstrui i qualquer possibilidade de futuro.
A principal causa da  existência deles foi a importante influencia do marxismo na America
Latina desde os primórdios do século XX.  A Europa é também um bom exemplo, ainda que
não tão grave, da má influência dos sindicatos. A raiz do problema foi a social-democracia
que se desdobrou ali no comunismo. Historicamente, a Europa tem taxas de desemprego
da ordem de 10%, que são o dobro dos Estados Unidos.   

7) O direito à propriedade privada e a questão da segurança jurídica. Esses conceitos
são bastante relativos no caso do Brasil. Na área rural temos o MST (Movimento dos Sem-
Terra) que inclusive tem sido exportado ao Paraguai. Eles invadem propiedades, algumas
vezes inclusive de empresas estrangeiras, destroem as instalações, etc. Nas áreas
urbanas, se o Estado desapropria sua casa, por exemplo, você recebera um precatório que
provavelmente jamais será pago. Trata-se de um Estado selvagem.          

Esses são os principais fatores econômicos tangíveis. Eles são um tanto quanto mais
fáceis de serem administrados no agronegócio. Eu trabalhei, realmente, em ambos os
setores. De fato, muitos fazendeiros brasileiros cruzam a fronteira rumo à Bolívia e ao
Paraguai para produzir grãos por lá.  Ademais, os recursos naturais, inclusive a mineração,
são fatores significativos que contribuíram para a competitividade do setor.

O setor manufatureiro funciona parcialmente no comércio entre os países da região. Por
exemplo, as multinacionais voltadas para a área de veículos produzem componentes no
México, na Argentina e no Brasil para ganharem escala e reduzir custos e trocam esses
insumos entre si. Os componentes mais sofisticados vêm de fora. Apesar disso, a China,
por exemplo, vem deslocando o Brasil na exportação de vários produtos manufaturados
para a Argentina. O Brasil tem protestado, em vão, alegando a primazia do Mercosul.

As tarifas para importação de manufaturados do mundo industrializado e da Ásia são
extremamente altas de modo a proteger o frágil setor manufatureiro local.

Um caso bastante interessante é o fracasso das maquiladoras no México. O avanço do
Cartel de Juaréz, entre outros grupos, no tráfico de drogas e poder local na fronteira
México- Estados Unidos é um bom termômetro disso.

O norte do Brasil teve uma experiência menor, ainda que  similar, com a Zona Franca de
Manaus, porém, visando mais o mercado doméstico. Nada significativo, tampouco.

Com respeito aos principais fatores adversos e intangíveis está a cultura local: a
vagabundagem e a inveja. Esses fatores também são  mais administráveis no agronegócio.

O trágico é que o agronegócio não gera oportunidades de trabalho devido ao seu atual alto
nível de produtividade e o setor manufatureiro, que seria fundamental para isso, tampouco
o faz.