Porque a América Latina não Consegue
Competir em Manufaturados (2012)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

Há, obviamente, vários fatores explicando esse fenômeno. Vou
tentar apontar os principais baseando-me principalmente em
dados do Brasil. Eu creio que,
mutatis mutandis, a analise é,
grosso modo, válida para os demais países desse
subcontinente.

Uma questão relacionada e interessante é porque a maioria
dos países da região consegue competir em commodities e
outros produtos primários, tais como peixes, frutas, etc. De
fato, muitos desses produtos são extremamente competitivos.
Ademais, esse subcontinente é bastante competitivo na
exportação de drogas, emigrantes à procura de trabalho,
travestis e prostitutas, mas esses tópicos não serão abordados
nesse contexto.

Há oito pragas econômicas bastante ligadas à produção de
manufaturados na América Latina:

1)
Carga Tributária. Brasil é o pior dos casos com um nível
próximo dos 40% do PIB, praticamente o dobro dos outros
países da região, com quase nenhuma contrapartida em
serviços públicos.  São muito caros e excessivos os
“servidores” que vivem de tributos;

2)
Taxas de juros. A razão para tão altas taxas de juros é o
permanente aumento da dívida pública;


3) M
onopólios estatais. Nos casos de Brasil, México,
Venezuela e Argentina, a maioria delas se encontra no
principal ramo de produção, i.e., o setor energético. No caso da
Venezuela, o histórico populismo local fez com que sua
população se sentisse “rica” quanto ao petróleo e, então, ela
não precisa pagar pela gasolina! Outro aspecto do populismo
econômico na região.

4)
Relações de Trabalho. Novamente, o Brasil é o pior dde
todos os países. Aqui, existe uma justiça federal especifica
para arbitrar as relações de trabalho, que gera milhões de
processos todo ano, sobretudo, contra as empresas
manufatureiras. Isso significa um importante item nos custos
de produção. O populismo econômico enfatizado pelo ilustre
Sr. Greenspan como causa maior da tragédia tem aqui um
importante papel.  

5)
Ausencia de Infraestrutura/Estados semi-falidos. Os
Estados na America Latina não tem capacidade de investi
menos  As receitas de impostos vão praticamente todas para
as nomenklaturas lociais – os que vivem de impostos e outros
privilégios.   

6)
Burocracia. A América Latina é uma das piores partes do
mundo. Muitos estudos do Banco Mundial são enfáticos nesse
aspecto. O ambiente para fazer negócios, abrir e fechar
empresas, é dos mais difíceis nessa escura parte do mundo. O
sistema tributário é um dos mais ineficientes, uma verdadeira
parafernália. Pagar impostos toma um tempo enorme das
empresas Todo dia, são editadas novas normas tributárias;
ademais, freqüentemente os funcionários das alfândegas
entram em greve;

7)
Sindicatos. Eles constituem um fator que obstrui i qualquer
possibilidade de futuro. A principal causa da  existência deles
foi a importante influencia do marxismo na America Latina
desde os primórdios do século XX.  A Europa é também um
bom exemplo, ainda que não tão grave, da má influência dos
sindicatos. A raiz do problema foi a social-democracia que se
desdobrou ali no comunismo. Historicamente, a Europa tem
taxas de desemprego da ordem de 10%, que são o dobro dos
Estados Unidos.  

8)
Direito à propriedade privada e a questão da segurança
jurídica
. Esses conceitos são bastante relativos no caso do
Brasil. Na área rural temos o MST (Movimento dos Sem-Terra)
que inclusive tem sido exportado pra o Paraguai. Eles invadem
propriedades, algumas vezes inclusive de empresas
estrangeiras, e destroem as suas instalações. Nas áreas
urbanas, se o Estado desapropria a sua casa, por exemplo,
você recebera um precatório que provavelmente jamais será
pago. Trata-se de um Estado selvagem.  Em 2012, o caso
Argentina versus Repsol (YPF) é um excelente exemplo.
 
Esses são os principais fatores econômicos tangíveis. Eles são
um tanto quanto mais fáceis de serem administrados no
agronegócio. Eu trabalhei em ambos setores. De fato, muitos
fazendeiros brasileiros experientes cruzam a fronteira rumo à
Bolívia e ao Paraguai para produzir grãos por lá.  

O setor manufatureiro, introduzido aqui pelas multinacionais,
funciona parcialmente no comércio entre os países da região.
Por exemplo, as multinacionais voltadas para a área de
veículos produzem componentes no México, na Argentina e no
Brasil para ganharem escala e reduzir custos e trocam esses
insumos entre si. Os componentes mais sofisticados vêm de
fora. Apesar disso, a China, por exemplo, vem deslocando o
Brasil na exportação de vários produtos manufaturados para a
Argentina. O Brasil tem protestado em vão, alegando a
primazia do Mercosul.

As tarifas para importação de manufaturados do mundo
manufatureiro e da Ásia são extremamente altas, de modo a
proteger o frágil setor manufatureiro local.
Um caso bastante interessante é o fracasso das
maquiladoras
no México. O avanço do Cartel de Juaréz, entre outros grupos,
no tráfico de drogas e poder local na fronteira México- Estados
Unidos é um bom termômetro disso.

O norte do Brasil teve uma experiência menor, ainda que  
similar, com a Zona Franca de Manaus, porém, visando mais o
mercado doméstico. Nada significativo, tampouco.
Com respeito aos principais fatores adversos e intangíveis está
a cultura local: a vagabundagem, a cultura da extorsão, a
inveja, etc. Esses fatores também são mais administráveis no
agronegócio.

O maior dos fatores culturais que impede qualquer
possibilidade de desenvolver uma industria manufatureira é  a
falta de inteligência. A inteligência é um fenômeno fruto de um
processo social, i.e, ela não se desenvolve individualmente,
ela é fruto de um processo coletivo onde os estímulos mútuos
são fundamentais.

O trágico é que o agronegócio não gera oportunidades de
trabalho devido ao seu atual nível de produtividade e o setor
manufatureiro, que seria fundamental para isso, tampouco o
faz.