As Profundezas do Inferno Brasileiro (2010)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

Apesar de minha dificuldade de visão, me decidi por comprar uma máquina digital
para fotografar e colocar no meu site as mais importantes peças que eu projetei ao
longo de meus heróicos dezoito anos de convívio com a infernal CLT, segundo meu
falecido amigo Huáscar Terra do Vale.

Meu filho, que mora em Washington, DC, me sugeriu uma Canon ou uma Nikon. Entrei
no site amazon.com, onde habitualmente compro livros, e me deparei com uma
Canon. Ele me disse que em caso de eletrônicos, a coisa poderia ser mais complicada,
e sugeriu que eu a comprasse, enviasse para sua casa e ele a reenviaria para mim.
Apesar de ser da época da régua de cálculo já me haviam informado de que havia
necessidade, ademais, de um chip de memória. Pensei: perfeito, ele monta isso para
mim, testa e me envia. Ledo engano.

Após umas 4 semanas, ao ver alguém tocando a campainha e uma Kombi do Sedex
exclamei: ate que enfim! Na verdade, tratava-se de pluviômetro, presente de um
amigo agricultor de Mato Grosso. O funcionário me explicou que envios do exterior
estavam demorando, em média, três meses! Eu argumentei que tenho enviado
presentes ao exterior - Estados Unidos, Suécia e Alemanha – no sistema econômico, o
mais lento, e chegavam em duas ou três semanas. No entanto, ele contra-
argumentou que achava isso bastante natural devido ao excesso de envios para o
Brasil. Tudo estava parado nas alfândegas do Rio e São Paulo. Não se tratava de
lascívia de nossos funcionários, mas apenas de excesso de trabalho. Isso não valeria
no sentido contrário.

No quadragésimo dia da saída de minha encomenda de lá, recebo um aviso do correio
com um boleto a pagar, em dinheiro. Não sabia que isso era tributável. O
impostômetro ou os setenta e três impostos listados recentemente na internet, com
certeza, não registram isso. A alíquota era de “modestos” 60%! E, depois, nossos
governantes explicam que uma das causas de nossa tragédia econômica seria o
protecionismo dos países ricos! De qualquer forma, fiquei feliz, dada a minha
expectativa. Seria de bom alvitre avisar aos amigos que eventuais presentes desse
tipo podem ficar muito caro para os presenteados. Os 60% explicam, em grande parte
e só entendo agora, a origem de uma nova profissão no país: os chamados sacoleiros
do Paraguai.

Ao chegar em casa e ao abrir o pacotinho constatei  a cruel realidade: estavam
apenas os acessórios, menos a máquina! Haviam surrupiado a peça central.  Retornei
imediatamente aos Correios e seus funcionários foram muito gentis.  Pesamos juntos
o pacote e ele registrava algo como 450 gramas, enquanto a aduana americana
registrava 1,25 libras, ou seja, 568 gramas. A aduana brasileira registrava peso zero!
Era a materialização do conjunto vazio que só havia aprendido em minhas aulas
teóricas de engenharia! O pacotinho havia passado pelas mãos de funcionários de
três estatais: Receita Federal, Policia Federal e Correios. A agência do correio local
me disse que sua central, em Brasília, entraria em contato comigo, mas isso jamais
ocorreu.  

Amigos, inclusive dois deles advogados, me recomendaram fazer um BO. Dirigi-me  ao
distrito policial de meu bairro. Era uma sexta-feira, 1400 da tarde. Pareceu-me um
horário favorável, pelo que leio nos jornais.  De fato, eu era, aparentemente, o único
na espera. Depois, vi um segurança de uma agencia bancaria próxima  que volta e
meia tirava a senha de espera e voltava de quando em quando para ver sua sorte. O
atendente tomava o depoimento de um casal, o que demorou pelo menos uns 30
minutos. O atendente mudou, então, para uma moça. Pensei:agora é minha vez. Qual
nada, entraram dois adolescentes, obviamente compadres da moça, sem senha, sem
nada, e tomaram a minha frente, que por sinal era preferencial apesar de ser o único
na espera.

No salão, havia um terminal de computador com os dizeres: Auto-Atendimento
Eletrônico.  Entrei nele e quando  estava tentando achar a opção furto em geral
chegou uma outra funcionária, aparentemente retornando do almoço, e se dispôs a
me ajudar. Mas, tudo em vão, não havia tal opção.  

Fiquei caminhando próximo a atendente, ocupada com os dois jovens, quando ela me
pediu para eu me sentar na sala de espera. Não o fiz, obviamente. Após alguns
minutos, incomodada, ela me perguntou desde sua mesa sobre o que era o meu BO.
Ao explicar, ela me disse que não cabia BO. Tratava-se de uma questão para as
pequenas causas! Retirei-me.

Bem disse um sábio local, inspirando-se em Dante em sua obra
A Divina Comédia:
percam todas as esperanças, estamos todos no inferno.