Brasil, um País de Tontos (2010)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

Brasil é o império das ilusões (Jean Baudrillard, 2002)

Há muitos exemplos para ilustrar o título acima. Aqui, serão relatados apenas
os mais recentes factóides desde 2008 – entenda-se aqui pela palavra, fatos
imaginários com a aparência de fatos reais.  Alguns têm uma existência
anterior a 2008, mas sua relevância só foi enfatizada nos anos recentes. Esses
factóides, de outro ponto de vista, podem ser meramente vistos como simples
exercícios mentais, ainda que, com profundas implicações políticas.

Em primeiro lugar, vem a questão do pré-sal. Aqui, de fato, há um truque de
semântica. O nome real do projeto deveria ser: exploração de petróleo em
águas ultra profundas. Obviamente, águas ultra profundas significam enormes
dificuldades, e assim a palavra correta foi evitada. Para se ter um parâmetro, o
terrivel desastre da British Petroleum no Golfo do Mexico, em abril de 2010,
estava a "apenas" uma milha abaixo do nivel do mar; o projeto da Petrobras
estaria a 5 milhas!  De fato, trata-se de uma tarefa impossível para um estado
semi-falido como é o caso do estado brasileiro. Parece tratar-se, isto sim, de
um delírio ficcional.

O hilário nesse caso é que já começou um debate acirrado, no Congresso
Nacional, quanto à divisão de “royalties” - uma verdadeira divisão do butim
entre Estados. Aqui, há novamente um truque de semântica. A palavra royalty,
de origem inglesa, significa, nesse caso, simplesmente impostos. O significado
inglês da palavra foi totalmente modificado. De fato, o significado original é o
único registrado em nossos dicionários  em 2010, mas atualmente essa palavra
so é usado dessa maneira no âmbito do comércio internacional. Essa tarefa de
enganar a população não é nada difícil num país onde 75% dos cidadãos não
sabem sequer o significado da palavra imposto.  Uma boa pergunta é por que
tal nível de idiotia. Essa é a principal razão de Lula ser tão popular.

A segunda
tonteria é o trem de alta velocidade. Trata-se de uma grande idéia
que está se desenvolvendo nos países desenvolvidos de grandes extensões
territoriais, como os Estados Unidos, por exemplo, e na emergente China. Esse
trem ligaria as cidades de Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Dada a
realidade brasileira, trata-se de uma asneira econômica de grosso calibre, mas
a idéia, por si só,   transmite a mensagem, ou miragem, de uma grande
“nação”....Nós sequer conseguimos construir um Estado de Direito  saudável!
Como sonharmos com uma possível nação.  

A terceira
tonteria é a construção de Belo Monte, uma grande represa no Rio
Xingu, Pará, para a geração de energia elétrica. O Estado não tem recursos
nem para manter sua deteriorada infra-estrutura – estradas, portos,
aeroportos, etc. Sequer tem dinheiro para tapar os buracos de ruas e avenidas
nas grandes cidades e consertar as calçadas. Ele tem que pagar muitos
privilégios tais como as aposentadorias hereditárias para filhas “solteiras” – e
parideiras, diga-se de passagem - de funcionários públicos e, ademais, altos
salários para os funcionários de empresas estatais. Eis ai a cruel realidade.

No caso de Campinas, cidade a 100 km de São Paulo, há um outro sonho
demencial :a expansão do aeroporto “internacional” de Viracopos. De fato, o
aeroporto foi construído em 1958 para atender a cidade de São Paulo com
apenas uma única pista! Já naquele tempo, não havia dinheiro para uma
segunda pista, mas o sonho persiste há mais de 50 anos, até os dias de hoje.  
Quase todo dia, a mídia local toca nesse assunto.

A quinta
tonteria é a construção do Brasil como uma potencia militar global.
Chega a ser realmente ridícula tal pretensão. Um país que não fez uma única
guerra nos últimos 150 anos e cujo orçamento militar é gasto basicamente com
aposentadorias – a maior parte delas hereditárias!

Após cinco/seis anos de preços estratosféricos das commodities devido ao
maior período de expansão econômica da historia humana, os cofres da União
encontram-se abarrotados de dólares. Dessa forma, o governo ronca papo, já
há algum tempo, que irá comprar submarinos nucleares e caças da França. Por
que não dos Estados Unidos, que após quase 200 anos sob permanente estado
de guerras, por lógica, deveriam ter as melhores armas?

Porque os nossos governantes têm uma espécie de velho love affair com Cuba,
e tal opção não seria bem vista. Pode até ser que esse negócio com a França se
realize, não no volume propalado, obviamente. Afinal, há coisa de uns 50 anos,
compramos um porta-aviões da Inglaterra, verdadeiro pau-velho, sem sequer
termos aviões! O lúcido Juca Chaves, naquele então, cantou seu fabuloso
“Brasil já vai a guerra, comprou porta-aviões....”   

Recentemente, a Venezuela, numa época em que o socialismo só existe como
excrescência ou curiosidade histórica, comprou 18 caças da China (sic),
afirmando que se tornaria uma potência socialista! Como se vê, demência e
tonterias são doenças próprias desse subcontinente.

Em 7 de setembro  de 2009, Sarkozy foi convidado às pressas para a cerimônia
em Brasília para fechar definitivamente  o negócio.  Devido à pressa, eu
suponho, ele não trouxe sua maravilhosa Carla Bruni. A mídia brasileira, com
razão, reclamou.

Na ocasião, houve acrobacias de aviões e parada militar, como é do habito
local. Trata-se de um show, via TV, para mostrar o Brasil como potencia
militar. Afinal, aqui existe a lenda, criada por Vargas – nosso gênio original da
malandragem - que foi Santos Dumont que, em Paris, inventou o avião, e que
ele teria se suicidado devido ao seu uso militar. Que alma ingênua e
magnânima seria a de Santos Dumont!  Na verdade, alem de seus
antecedentes de vida tal como uma mãe suicida, por exemplo, tratava-se de
um simples caso de paixão amorosa, tão comum entre humanos.  

Pobre Sarkozy! Ele não entende a malandragem local.Ele deveria estudar mais
história. Napoleão Bonaparte, nas suas memórias escritas pouco antes de
morrer no exílio na ilha de Santa Helena, referindo-se a D. João VI, Rei de
Portugal e do Brasil, disse que ele foi o único que conseguiu enganá-lo. De
Gaulle, ai pelos anos 60, ao visitar o Brasil, afirmou: “O Brasil não é um pais
serio”.    

O objetivo de Sarkozy estar no palanque do dia 7 de setembro de 2009 era
simplesmente aumentar o grau de popularidade de Lula. Quanto a venda dos
caças e afins, sabe lá deus. Ou melhor, talvez, para o próximo 7 de setembro
de  2010, agora sim, vésperas das eleições,  o negocio seja fechado para
alavancar a candidatura oficial à presidência. Alguns aviões, zero-bala,
voariam, em baixa altitude, sobre Brasília, para o delírio da massa ignara.
Afinal, três dúzias de caças, com tantos dólares em caixa, não se trataria de
problema tão grave.