Porque a América Latina Exporta Gente (2006)

Josino Moraes
Latin America Economic Researcher
www.josino.net
email: josinomoraes@hotmail.com

A América Latina exporta gente porque aqui não há oportunidades de trabalho. E as pessoas
ficam loucas quando não têm o que fazer, como ganhar a vida. Os Estados Unidos podem
erguer quantos muros forem possíveis em suas fronteiras, mas isso ainda não resolveria o
problema. As autoridades americanas podem prender latinos ilegais, bem como multar seus
empregadores ou tomar quantas outras medidas legais forem possíveis, mas isso ainda não
resolveria o problema. Em último caso, eles podem até deportar as pessoas. Mas, como
disse o presidente George W. Bush recentemente, esta não é uma questão policial. Os
minutemen podem se multiplicar, mas sua eficiência ainda assim seria duvidosa. Para
complicar o cenário, os americanos são um povo muito religioso e as Igrejas não se
importam nada com noções como fronteiras e nações. Os Estados Unidos têm que entender
o que os romanos descobriram: Sublata causa, tollitur effectus –  eliminada a causa, cessa o
efeito. Caso contrário, Las Marchas serão um problema permanente.

A pergunta principal é: Por que a América Latina não cria oportunidades de trabalho? Gerar
empregos depende do funcionamento de uma economia de livre mercado, alem de outras
premissas. A China, com um único partido político, possui uma economia muito mais
democrática do que a América Latina. Então, primeiramente, nós devemos fazer uma
diferenciação entre democracia política e democracia econômica. O fato é que se o que se
procura é o bem-estar econômico de uma população, a democracia econômica é muito mais
importante do que a democracia política.

A mais importante evidência de democracia econômica é o mercado de trabalho. Como dito
por um jovem economista chinês, A China é o país mais capitalista da face da Terra em
termos de mercado de trabalho. Neste sentido, a China é uma economia muito mais liberal
do que a França. Recentemente, algumas medidas, de fato nada de muito importante, para
"libertar" o mercado de trabalho na França foram derrotadas. Na América Latina, esta
situação é muito mais séria do que na França. A França sofre as conseqüências de seu
passado de predomínio da social-democracia, da arraigada tradição sindicalista etc. A
América Latina sofre a influência das idéias do fascismo italiano de Benito Mussolini.   

Além disso, na América Latina, nós temos os monopólios estatais, e para piorar nosso
destino, os mais importantes monopólios estão no setor energético, o principal insumo da
cadeia produtiva - Pemex, Petróleos de Venezuela (PDVSA), Petrobrás etc. Elas são aquilo
que se poderia denominar de "As Intocáveis". Esta é uma das razões da atual crise
petrolífera. Pode-se suspeitar piamente que há muito petróleo sob o solo latino-americano,
pois estas estatais dão origem a imensos benefícios e privilégios para seus empregados,
inclusive salários incrivelmente altos. E ademais, são fontes de incrível ineficiência, além de
serem também fontes de corrupção devido aos altos preços dos bens e serviços que elas
oferecem. Elas dão origem a um dos mais importantes segmentos da Nomenklatura local. O
lema El Petroleo Es Nuestro, que Cárdenas lançou no início dos anos 30, é uma grande
mentira. O petróleo serve aos enormes privilégios de seus empregados e aos seus
milionários fundos de pensão.

O incrível é que, devido ao lamentável estado mental das populações locais e com a ajuda
da mídia, os políticos podem, tranqüilamente, fazer apologia desses monopólios -
verdadeiros monstros econômicos - em pleno início do século XXI!

Se fosse possível resumir a tragédia da América Latina em apenas uma palavra, poder-se-ia
dizer privilégios. Eles estão em todo lugar nessas sociedades. Eles impedem qualquer
possibilidade de desenvolvimento econômico. A existência desses privilégios impõe uma
carga tributária insuportável para o resto da sociedade. As conseqüências são, dentre outros
fatores, a existência de gigantescas dívidas públicas, insustentáveis a longo prazo. E as
enormes taxas de juros são a seqüelas naturais que obstruem o normal funcionamento de
processos econômicos de livre mercado.